Batatinha. Oscar da Penha, o diplomata do samba

1924

1940

1944

1960

1969

1973

1976

1983

1994

1998

Nascimento de um Poeta

Em 05 de agosto de 1924, na maternidade Climério de Oliveira, no bairro de Nazaré, em Salvador, nascia Oscar da Penha. Filho de Emília da Penha e Manoel Bonifácio, teve uma infância pobre pelo centro histórico da cidade, no tempo de uma Bahia mítica, marcada pelas festas de largo, pelos gritos de carnaval nos bairros, pelas baianas que anunciavam seus quitutes com cantos dolentes. O pai foi estivador, um boêmio nato, enquanto sua mãe era uma mulher trabalhadora, rígida na educação dos filhos. Foi dela quem herdou a responsabilidade para o trabalho e aos 10 anos teve seu primeiro ofício numa marcenaria, quando tinha de subir num banco para conseguir serrar as madeiras. O pouco que ganhava era essencial para ajudar a manter a casa.

O gosto pela música surge logo cedo e como sua família não possuía um aparelho de rádio em casa, tinha por hábito ir até os lugares onde pudesse ser rádio-ouvinte, em especial no Café Glória, na Rua do Bispo. Foi lá, principalmente, que cresceu antenado com os programas do Rio de Janeiro, absorvendo os sucessos musicais da época, muito ligado aos bambas da década de 1930, em quem iria se inspirar para, poucos anos depois, também se arriscar como sambista.

Entre o Trabalho e a Música

No ano de 1940, o adolescente franzino é contratado como office boy, naquele tempo chamado de contínuo, pelo importante Diário de Notícias, pertencente ao Grupo Diários Associados de Assis Chataubriand. Pouco depois, já tinha sido promovido a linotipista e a partir de então lidaria diretamente com as palavras. Este será seu ambiente de trabalho até sua aposentadoria, trinta anos mais tarde.

Por essa mesma época, o jovem Oscar da Penha já apresentava um enorme talento musical, aprendia a cantar toda e qualquer música que gostasse de ouvir no rádio. Começou a participar de festas de meio de ano com sua turma, sendo sempre um dos preferidos para assumir a responsabilidade de cantar, sem ganhar nada em troca, apenas por prazer. No repertório, tirava músicas de Assis Valente, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Lamartine Babo, Lupicínio Rodrigues e, o seu predileto, o jovem e famoso Vassourinha. Começava, assim, a tomar forma sua primeira grande vocação: a de cantor.

Com vocês, o Batatinha!

Habituado a cantar sambas em festas junto com amigos na adolescência, Oscar da Penha muito cedo passa a frequentar a cena musical de Salvador, tendo trabalhado, por exemplo, como responsável pela sonoplastia da Festa da Mocidade, evento que nos anos 1940 reunia no Campo da Pólvora grandes nomes do rádio vindos do Rio de Janeiro, como Orlando Silva, Vicente Celestino, dentre outros. Apesar de sua música por essa época acontecer à margem da cena principal, essa sua proximidade e afeição pelo samba carioca marcou sua formação.

As coisas mudariam para nosso jovem sambista por volta de 1944 com a chegada do diretor artístico Antonio Maria para comandar a nova programação da Rádio Sociedade da Bahia, incorporada ao grupo de Assis Chataubriand, do qual já fazia parte o antigo Diário de Notícias. Ao se deparar com aquele rapaz na porta do jornal estudando uma pauta musical, Antonio Maria o convida a fazer um teste para o novo programa que estava criando, o Campeonato do Samba. Após passar pela seleção do rígido diretor, Oscar da Penha integra o time de cantores do novo programa. É a partir daí que Antonio Maria o leva para um outro programa da Rádio Sociedade, chamado Parada de Calouros Eucalol, onde ocorre o famoso batismo. Ao anunciar o próximo cantor, sem maiores explicações, o radialista chama ao palco “Oscar da Penha, o Batatinha”. Apesar de num primeiro momento não agradar ao sambista, o apelido cai na boca do povo e contribui para a sua consagração.

O compositor

Após seu lançamento oficial feito por Antonio Maria, Batatinha passa a incrementar sua carreira de cantor. Foi na noite, em sua “boemiazinha”, que se aproximou do pessoal da Rádio Sociedade e da cena musical. Ainda nos anos 1940, forma um conjunto vocal, os Garotos da Vila, que se reunia no Barbalho, e no qual tocou pandeiro durante seu curto período de existência. O repertório eram músicas de outros conjuntos vocais famosos. Porém, aos poucos, Batatinha começa a fazer uns rascunhos e a tirar seus primeiros sambas, dos quais ele tinha vergonha, alegando serem de compositores do Rio. Novamente é Antonio Maria quem o descobre, dessa vez como compositor, e o convence a assumir suas músicas. Seu primeiro samba a ganhar forma definitiva teria sido Inventor do trabalho, seguido de Olha aí o que é que há, Feijoada do samba, Iaiá no samba, todos entregues ao grupo Ases do Ritmo, de que fazia parte seu amigo Tião Motorista.

Superada essa timidez com as primeiras canções, Batatinha desenvolve cada vez mais seu lado compositor, sempre trazendo no bolso da camisa sua fiel companheira, a caixinha de fósforos. Nela é que batucava seus sambas, também suas marchinhas, com os quais começou a concorrer no carnaval de Salvador, amargando derrotas durante toda a década de 1950. A sorte só mudaria para ele em 1960, com o samba Fora de lugar, que, finalmente, arrebatara o prêmio. A partir daí, um novo capítulo se iniciava para o poeta.

Companhia Ilimitada

Os anos 1960 são marcados pela propagação do talento de Batatinha. Eles se abrem com uma gravação que foi essencial para a consolidação de sua carreira em nível nacional. Trata-se do registro que o mangueirense Jamelão fez de sua música Jajá da Gamboa, que tocou nas rádios de todo o país. Logo em seguida, no ano de 1962, seu prestígio cresce ainda mais ao ter sua música Diplomacia como trilha do filme Barravento, do cineasta Glauber Rocha. Contudo, o arremate desse reconhecimento no meio artístico se dá graças a Maria Bethânia, que em 1965, no seu disco de estreia, também faz o registro da música Diplomacia, tornando-se, doravante, sua principal intérprete.

Essa década se destaca pelas consecutivas vitórias que o sambista alcança no concurso municipal de música para o carnaval, quando seus sambas e marchas começam a cair no gosto popular. Batatinha torna-se uma figura de referência cultural pela cidade de Salvador e sua personalidade cativante o permite circular em diferentes meios, agregando novas amizades às antigas. Nesse período, andou somando talento às novas gerações, tomando parte no Grupo Função, que reunia, dentre outros, Tião Motorista, Edil Pacheco, Ederaldo Gentil, Moraes Moreira, Luiz Galvão, Cid Seixas. Dessa intensa movimentação e aliança com jovens talentos surge o seu primeiro disco, em 1969, o compacto duplo Batatinha & Companhia Ilimitada.

Samba da Bahia

Com o passar dos anos e com o prestígio crescente que Batatinha angariava no meio artístico soteropolitano, sobretudo no meio musical, sua figura se tornou essencial para o que viria a se chamar de samba baiano. Junto a ele e outros da antiga geração, como Riachão e Tião Motorista, vieram somar vozes Walmir Lima, Ederaldo Gentil, Edil Pacheco. No centro de toda essa articulação estava Batatinha, o diplomata do samba, responsável muitas vezes por fazer pontes entre tantos talentos. Como símbolo de toda essa efervescência no meio do samba, Batatinha grava seu segundo disco, em companhia de Riachão e Panela, num dos maiores documentos musicais da riqueza desse momento. Era o Samba da Bahia, lançado pela Continental em 1973.

Renovação

Após mais de trinta anos trabalhando de dia e de noite como gráfico para prover o sustento da família, Oscar da Penha, o Batatinha, se aposentou. A partir de então, passou a ter mais tempo para se dedicar à sua produção artística. Ele participou de diversos shows tidos como essenciais para fomentar o samba baiano, a exemplo de O samba nasceu na Bahia, juntamente com Ederaldo Gentil e Edil Pacheco no Teatro Senac. Outros shows desse mesmo período foram Nosso samba simplesmente e O samba continua, também no palco do mesmo teatro. Sem falar na roda de samba organizada por Ederaldo Gentil na quadra da escola Juventude do Garcia, que sempre podia contar com a presença do mestre Batata. Vivia-se um momento muito especial, de atuação profunda de todos em nome de uma maior organização em torno da cena cultural. Data dessa época, por exemplo, a institucionalização em Salvador do Dia do Samba, a 02 de dezembro.

Batatinha se envolveu bastante com toda essa valorização, em grande medida porque não encontrava empecilhos para se relacionar pessoal e musicalmente com a nova geração de músicos e compositores. Antes, o contrário, dava-se muito bem e o seu trabalho por essa década é um reflexo disso, de uma renovação de parcerias que em parte acaba por desaguar no seu primeiro disco solo, de 1976, o clássico Toalha da Saudade.

Andando por aí

Na construção de sua carreira artística, Batatinha teve a oportunidade de apresentar seu trabalho fora da Bahia, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, cidades que tiveram a oportunidade acolhê-lo mais de uma vez em projetos solo ou coletivos, como quando o sambista esteve no Rio na companhia de Panela e Riachão para o lançamento do LP Samba da Bahia. Noutra feita, a ele e a Riachão se juntou Ederaldo Gentil, trabalhando sempre na mesma direção, a de divulgar o samba feito em sua terra.

O ano de 1983, porém, foi um marco em suas andanças. Batatinha tomou parte no Projeto Pixinguinha realizado pela Funarte juntamente com Elza Soares, rodando por diversas capitais brasileiras. O repertório do show Noite e Luz mesclava sucessos dos dois artistas e passou por cidades como Brasília, Fortaleza, Niterói, João Pessoa, Natal, Recife, além de Salvador. Pra completar o itinerário desse ano tão especial, Batatinha foi convidado a compor a caravana de artistas baianos que viajou até a Itália para se apresentar entre os dias 22 e 31 de agosto. Em Roma, nomes como Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Armandinho, Nana Caymmi, Moraes Moreira e o mestre Batata se irmanaram no festival Bahia de Todos os Sambas, que deleitou os italianos e tanta alegria trouxe ao compositor.

50 Anos de Samba

Tantas décadas desde as primeiras notas e acordes da adolescência, os anos 1990 vieram trazer para o diplomata do samba o coroamento de todos os seus esforços e de todo o serviço prestado à música baiana. Agora, com os nove filhos criados, adultos e encaminhados, ele podia se dedicar exclusivamente a burilar sua obra, trabalhar antigos sucessos, além de resgatar e divulgar músicas nunca gravadas.

O ano de 1994 veio pontuar duas comemorações: os 70 anos de Oscar da Penha, dos quais 50 foram dedicados ao samba, sob o apelido Batatinha. Aproveitando a data, um novo disco foi gravado em Salvador, com o apoio da Fundação Cultural Estado da Bahia e o lançamento feito em grande festa na Fundação Casa de Jorge Amado. Essa e outras homenagens que o sambista passa a receber confirmam o lugar alcançado por ele no rol dos grandes artistas baianos. O nome Batatinha tinha virado sinônimo de refinamento musical, de qualidade artística e de tradição no mundo do samba.

Despedida e Legado

Apesar de reconhecido e admirado no meio musical, Batatinha encontrava dificuldades para fazer circular seu trabalho na década de 1990. A indústria fonográfica da Bahia tinha se voltado quase que exclusivamente para a axé music, então no seu auge. É na contracorrente desse movimento que os jovens produtores J. Velloso e Paquito procuram Batatinha e lhe propõem a gravação de um novo disco, formatado como espécie de songbook, com a participação de grandes nomes da música brasileira. O novo projeto devolve o ânimo ao sambista nos seus últimos anos.

Entretanto, tão logo entram em estúdio para a gravação, a notícia de que um câncer acometia o artista mexe com todos os envolvidos. Mas do hospital ele manda seu recado: “Diga aos meninos que eu vou sair pra gravar esse disco”. E assim foi. Tão logo o poeta recobrou forças, voltou para o estúdio, agora com a vontade de concretizar o que, estava claro, seria seu último registro. Quando o derradeiro disco ficou finalmente pronto, Batatinha já não estava entre nós, partira no dia 04 de janeiro de 1997. Nos deixou Diplomacia como adeus em forma de música, último acorde num legado que conclama o nosso direito de sambar.

Discos

Conheça a discografia completa do Diplomata do Samba.

Imagens

A vida do sambista retratada em fotos da sua trajetória.

Vídeos

Vídeos que reconhecem a história do cantor.