Amor

Por trás do Batatinha, compositor conhecido em toda a cidade de Salvador pelos sambas e marchas feitos para o carnaval, havia Oscar da Penha, homem romântico, pleno de sensibilidade que não se resumia àquela compreensão existencial profunda com que encarava a vida e pela qual é sempre lembrado. Para além do boêmio carnavalesco, havia a pessoa que existia no restante do ano e não somente durante a festa. Esse homem também usou sua arte para expressar seu lado mais lírico, pra falar de dilemas amorosos, tanto seus quanto de outros.

Essas canções de temática lírico-amorosa são a comprovação de que o samba continuava sendo um gênero bastante apropriado para se falar das coisas do coração. O mestre Batata bem sabia disso, a cadência mais lenta de suas músicas românticas é herdeira direta do samba-canção dos anos 1940/1950, cenário em que se deu sua educação sentimental. Data dessa mesma época seu namoro, noivado e casamento com Marta dos Santos, mais conhecida como Dona Marta, grande paixão da juventude e mãe de seus nove filhos.

Os dois se conheceram ainda na saída da infância e a partir de então foram muitas histórias e uma delas, em especial, inspirou uma das mais belas canções do nosso poeta. O título Marta não deixa dúvidas quanto a sua motivação. Poucos sabem, porém, que a música fora feita numa tentativa de reconciliação e que ele a dedicou ao vivo para a amada na Rádio Sociedade. O que se seguiu a partir disso prova o êxito da canção. Menos conhecida ainda é a história da bela Indecisão, que Batatinha compôs a pedido de um amigo, como forma de declaração de um amor platônico já cultivado há tempos. Mais uma vez, o resultado é a concretização do sentimento amoroso. Ao que parecia, o sambista era bom em atar e reatar romances com seu talento.

Mesmo quando não entrava na parceria com a letra, suas melodias chamavam a atenção dos mais atentos, sobretudo dos que sabiam de seu processo de composição, sem se fazer acompanhar por qualquer instrumento musical. Segundo o amigo e parceiro Lula Carvalho, “Batatinha tinha todas as notas musicais numa caixa de fósforo”. As linhas melódicas com que traçava suas histórias eram tão ricas que às vezes despertavam o interesse imediato de novos parceiros. Foi mais ou menos este o caso de Bolero, que anteriormente se chamava Destino, até que a melodia encantou tanto Roque Ferreira que este insistiu para colocar nova letra na música, nascendo assim a canção que deslumbraria Maria Bethânia à época do disco Diplomacia.

Fosse um samba-canção ou um samba mais ritmado, a verdade é que esse gênero era o seu recanto e nele é que vivenciava suas dores e ilusões, mas também onde extrapolava a realidade, costurando em versos e melodias amores e desamores que poderiam ou não ter acontecido. Ao poeta não é necessário compromisso tão firme com a veracidade.

Embora nem sempre Dona Marta tenha compreendido dessa forma, nenhuma outra foi merecedora de uma canção que tão explicitamente lhe fosse dedicada. Assim é que devemos escutar a paixão que transborda dessas músicas, sem a preocupação de saber por quem divagava o apaixonado na canção.

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