Carnaval

Como todo tradicional sambista, Batatinha tinha no universo do carnaval um dos seus ambientes naturais. Fruto de uma época ainda distante da indústria que tomaria conta da festa a partir dos anos 1980, ele cresceu em pleno centro histórico, no lugar onde as coisas aconteciam. Assim, nada mais natural que o reinado de Momo fosse um dos temas centrais de sua música.

Seus sambas para o carnaval, porém, chamavam atenção por serem quase sempre tristes, cantando um modo todo especial de sentir a folia. Para o poeta, o carnaval seria apenas um momento passageiro de alegria que se abria na vida cotidiana, em nome da qual se pedia licença ao sofrimento. Na hora de sambar, essa alegria tinha passagem livre, mesmo que só durasse um dia.

Era com esse espírito de um carnaval melancólico, à primeira vista paradoxal, que Batatinha anualmente disputava o concurso municipal de sambas e marchas para a festa. Amargou durante muitos anos a derrota, inclusive com sambas que caíram no gosto popular, mas estranhamente não ganharam o do júri. Foi assim no fim dos anos 1950, quando colocou na boca dos foliões a singela história de uma toalha bordada que ficou de um carnaval passado, representando a saudade, essa, ainda presente.

Sua sorte no concurso só veio a mudar no ano de 1960, quando um acontecimento inusitado lhe trouxera inspiração. A história de um falso sócio do bloco Vai Levando que rouba os instrumentos da escola e depois tenta vendê-los pelo centro da cidade, inclusive para o próprio Batatinha, o motiva a fazer o samba campeão daquele ano. A partir de então, passa a ganhar de forma continuada o concurso na categoria samba, às vezes levando também o prêmio pela marcha. Foi o caso, por exemplo, de É macumba, marchinha em parceria com Walmir Lima, vencedora de 1964.

O gosto do sambista pela folia podia-se ver no modo como a representava em suas canções, motivo para composição mesmo quando ele não podia participar, restando-lhe apenas assistir a sua turma na avenida. É esse o lamento que escutamos em Direito de sambar, outra música campeã do inveterado folião. O direito que o poeta reclama, no fundo, é o de ao menos tentar enganar o destino que lhe era adverso, donde sambar seria a um só tempo escapismo e enfrentamento à dura realidade.

A imensa vontade de estar na festa aparece em sua obra como um imperativo em nome do samba, num claro reconhecimento da necessidade de se sambar enquanto a quarta-feira de cinzas não chegasse. Afinal de contas, fosse boa ou ruim, a própria vida seguia carnavalizada. O poeta, no seu íntimo, já sabia: “Tudo é carnaval/pra quem vive bem/pra quem vive mal”.

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