Diplomata

Oscar da Penha, o nosso Batatinha, teve sua arte revelada ao público duas vezes. A primeira vez foi como cantor, descoberto pelo radialista Antonio Maria, e só anos mais tarde iríamos conhecer o refinado compositor de sambas que durante alguns anos apresentou suas canções como se pertencessem aos grandes nomes “do sul” (forma de se referir ao eixo Rio-São Paulo à época). Tendo despontado no mundo do rádio nos anos 1940, a partir de então construiu uma carreira que poderíamos classificar de discreta, porém profunda.

Tal discrição se deve em parte aos descaminhos de uma indústria fonográfica que, por estar concentrada no sudeste do país, não prestou a devida atenção ao enorme talento que brotava em outras regiões; mas se deve também a uma característica do artista, lembrada por todos que o conheceram: a sua altivez. Como se recorda Maria Bethânia, talvez a sua maior intérprete, Batatinha possuía consciência do quanto era grande e uma nobreza que não lhe permitia pedir nada para si. Sua música foi sempre, e aos poucos, desbravada graças à qualidade que lhe era tão própria.

O que não fora capaz de pedir para si mesmo, no entanto, Batatinha perseguia para os colegas que tiveram a sorte de cruzar seu caminho. Ficou, inclusive, conhecido por introduzir novos talentos no meio do samba baiano e por fazer pontes entre a antiga e a nova geração. Foi o que fez em fins dos anos 1960, por exemplo, com Edil Pacheco, que tinha chegado com 18 anos do interior da Bahia. Tão logo o conheceu, o famoso sambista convidou o jovem recém-chegado para acompanhá-lo num show. A partir daí nasceu uma amizade e parceria.

O mestre Batata usava de toda sua articulação no meio artístico a favor dos que passavam a frequentar seu círculo de amizades. Mesmo quando já era um compositor conhecido, não fazia distinção de idades e hierarquias, como nos conta Cid Seixas, que com cerca de 20 anos lhe propôs parceria num chorinho e batalhou pela realização do primeiro disco com o nome do sambista logo após se tornar seu colega e amigo no Diário de Notícias. O trânsito de Batatinha com os mais jovens era intenso, e se mantinha aberto para conhecer novos sons, como foi o caso do rock´n´roll que ouviu ao lado de Lula Carvalho, outro jovem compositor apadrinhado no samba por ele.

Não só no meio musical, como em todo o meio artístico baiano, o jeito de Batatinha era respeitado e admirado; segundo o colega Riachão, um jeito quieto, calmo, às vezes calado. Era esse jeito que deixava a todos mais serenos, promovendo a harmonia nos ambientes em que se encontrava. Sua presença inspirava certo respeito, e não poucas vezes desempenhou papel de conciliador entre os amigos, tornando o meio do samba mais ameno. Seu jeito e sua postura acabaram por se mostrar fundamentais para a cultivação de uma cena do samba baiano. Walmir Lima atesta a liderança que Batatinha teve em sua valorização. Ele não só promovia encontros como apresentava novos talentos a todos, o que fez até os últimos anos de sua carreira, como comprova o apadrinhamento de Gal do Beco nos anos 1990.

Lula Carvalho nos relembra que mesmo para tecer alguma crítica, seu padrinho no samba nunca era maledicente, ao contrário, era muito sutil, tinha um humor fino, que nem todos eram capazes de compreender. Por todas essas suas características, lhe caiu tão bem o modo pelo qual passaram a lhe chamar quando de seu reconhecimento: diplomata do samba. Apesar de motivado pela canção Diplomacia, seu primeiro sucesso, quiçá o maior de sua carreira, o epíteto foi se colando ao artista, reconhecido por todos por sua habilidade em disseminar entendimento e samba pelos lugares que passava.

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