Melancolia

Foi provavelmente Paulinho da Viola o primeiro a colocar o talento de Batatinha no mesmo patamar dos de Cartola e Nelson Cavaquinho, configurando a tríade dos sambistas populares cuja poesia refinada vinha embalada por uma profunda tristeza. Posteriormente, críticos e estudiosos da área da música também notaram a semelhança de tom nas composições dos três, afirmando-os como os grandes poetas da melancolia no samba.

Embora Batatinha não produzisse no Rio de Janeiro, onde se concentrava o aparato mercadológico da música brasileira, e talvez por isso mesmo fosse o menos conhecido dentre os três sambistas, seu talento não passou despercebido, especialmente sua faceta melancólica. Tão logo esses sambas pungentes estreavam no carnaval, caíam no gosto popular e da classe artística de Salvador, consagrando-se em pouco tempo.

Foi assim com a canção mais emblemática de toda a sua carreira, pela qual é quase sempre lembrado. Diplomacia não ganhou o concurso do carnaval de 1958 por ser considerada triste demais pelo júri. Mas foram justamente seus versos e melodia dolentes que a levaram ao filme , de Glauber Rocha, em 1962. A partir dali, ela foi descoberta por um número cada vez maior de pessoas, dentre elas a jovem Maria Bethânia, que a inseriu no show Nós, por exemplo no Teatro Vila Velha, em 1964, onde surgiam, além dela, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé. Em cena, Maria Bethânia uniu as músicas Diplomacia e Só eu sei, numa versão que acabaria indo parar no seu primeiro LP. O próprio Batatinha se convence dessa junção e passa a cantá-la nos moldes de sua intérprete.

Após esses dois primeiros sambas, outros vieram em sequência no mesmo clima, o de uma tristeza cadenciada, prontos para o carnaval. Neles, a festa transborda de seu sentido original para se transformar numa metáfora da própria vida, sempre permeada pelo sofrimento. Mas este já havia se tornado elemento tão presente e íntimo do eu-lírico que ele já não concebia mais outra forma de se compreender quando fosse a Hora da Razão.

Note-se, entretanto, que, superando todo o desalento, somos sempre surpreendidos por um eu-lírico esperançoso, que mantém o sonho vivo até o limite do despertar. Seria empobrecedor ver na obra de Batatinha sinais de um sofrimento bruto, fatalista, sem nuances, logo ele que, tal qual o sujeito da canção, optara pelo sonho, por travestir a vida em ilusão e fantasia, por viver por meio da arte ou, como ele mesmo canta, na imitação da vida.

Por isso mesmo não podemos esquecer que tais angústias e dores não devem ser creditadas somente na subjetividade do artista, que o que aparece em suas músicas pode e deve ser ouvido como fruto do que ele compartilhou com , com os homens do seu tempo e lugar e em nome dos quais acionou sua sensibilidade. Não seria essa também uma das funções do artista?

Para os desavisados ou afoitos, tentados a reduzir a grandeza de sua obra, o poeta deixou pistas por toda ela. Eis a verdadeira Ironia que se esconde nas entrelinhas de suas canções: por baixo de toda a tristeza e melancolia aparentes, subjaz uma esperança que se renova diariamente. Mesmo quando parece não haver mais saída, o eu-lírico nos acena com um sorriso, e se nos revela um forte ímpeto de felicidade.

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