Riso

Gozador, alegre, brincalhão, sorridente…essas são algumas das palavras que rolam na boca dos antigos amigos e parceiros de Batatinha, além das situações em que ele tomava parte e que sobreviveram ao tempo por conta de sua picardia e graça, prova de que até hoje permanecem como bons causos de ser contados.

Pode soar estranho aos que se acostumaram à imagem criada do poeta a partir dos seus sambas mais famosos, melancólicos, às vezes soturnos, mas o jeito descontraído, seu bom humor, eram marcas de sua personalidade e também estão espalhadas ao longo de sua obra. Aliás, seu primeiro sucesso no rádio, Jajá da Gamboa, gravado por Jamelão em 1960, é um bom exemplar dessa safra de sambas espirituosos. As precárias condições de gravação e circulação de seu tempo, no entanto, acabaram contribuindo para que muitas dessas canções tenham desaparecido sem deixar vestígio.

Esse foi o caso, sobretudo, das suas marchinhas. Apesar de participar anualmente no concurso de carnaval da cidade na categoria samba, volta e meia Batatinha também se lançava nas marchinhas e não se saía mal. Muitas delas se tornavam sucesso imediato entre os foliões, mas o sambista passou muitos anos sem faturar nada por não saber da obrigatoriedade da inscrição. Acreditou que o sucesso no meio da folia era suficiente para garantir sua participação. Mesmo não premiadas, o certo é que muito da alegria da festa naquelas décadas de 50 e 60 fora feita com a sua contribuição.

As marchas carnavalescas de Batatinha eram divertidas crônicas do seu tempo. Fatos históricos e prosaicos lhe serviam de motivo. Para a eleição de Getúlio em 1950 fez Eu também fui eleito; a respeito do abono de trabalho, comenta em Calma, Hélio; sobre os encantos femininos, se declara em Produto brasileiro; ao saber que uma mulher havia trocado um camarada seu, alto, por um baixinho que aparecera, não resiste e faz troça em Decepção; e cite-se ainda sua parceria com Milton Barbosa em Marieta, uma “marcha de sacanagem”, das mais lembradas, cujos versos “Ô, Marieta, sua boca parece uma gaveta” incitavam o trocadilho que alvoroçava a multidão. Essa, Batatinha não cantava no carnaval; tempos de censura!

Tais marchinhas são exemplo do muito que se perdeu pela falta de registro. Delas, só conhecemos um ou outro verso, cantarolado aqui e ali. A JS Discos só passaria a gravar as campeãs em meados dos anos 1960, em compilações de sucessos do carnaval. Lá está uma de suas marchinhas vitoriosas, em parceria com Walmir Lima, É macumba, que arrebatou o prêmio no ano de 1964. Outra que se pôde resgatar, à época da produção do disco Diplomacia, foi Bebê diferente, prova inconteste do lado fanfarrão do compositor.

A veia cômica do mestre Batata foi bastante produtiva, com destaque para as músicas de galhofa, que tiravam sarro de situações vividas por amigos. Tinha mesmo a fama de a tudo transformar em samba, deixando alguns receosos de compartilhar consigo suas histórias. Aqueles que inadvertidamente o faziam ou que eram captados pela atenção do poeta corriam o risco de ouvirem seus casos na boca do povo. Foi o ocorrido com um camarada seu que bancou o Zé de Loca em pleno salão. Mas apesar de não economizar palavras em suas sátiras, o sambista também era capaz de fazer rir com passagens mais amenas, por exemplo, inspirado pelo simples passeio de uma Babá de luxo, demonstrando que mesmo no humor havia espaço para sua ternura.

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