Trabalho

“Gráfico de profissão, sambista nas horas vagas”. Era assim que Batatinha se definia quando questionado sobre sua ocupação. A afirmação que repetiu em tantas entrevistas não era charme ou fruto de falsa modéstia. Praticamente toda a sua carreira aconteceu nos intervalos de um expediente e outro, e com certa frequência fazia serão nas madrugadas, quando o seu trabalho artístico se misturava com a sua “boemiazinha”.

Ver sua arte relegada a segundo plano, acanhada frente a outras funções, não foi uma sina só sua, mas consequência do contexto social em que outros sambistas também se viram enredados. Além de Batatinha, esse foi o caso de Riachão, Tião Motorista, Garrafão, Panela, Chocolate, toda uma geração de grandes talentos que teve de garantir sua sobrevivência como barbeiro, balconista, sapateiro, contínuo etc. Apesar do sucesso que faziam no rádio, o reconhecimento financeiro não vinha na justa medida, de forma que a arte ficava para as “horas vagas”.

Não demorou muito para o mestre Batata ser confrontado com a dura realidade. Aos dez anos perdeu o pai e se tornou arrimo de família, passando a carregar marmita por Salvador para ajudar a mãe e os dois irmãos. É nesse momento que se familiariza com suas ruas, especialmente as do Centro Histórico e do Comércio. Logo em seguida teve seu primeiro ofício, marceneiro, tendo de subir num banco para cumpri-lo a contento. Só alguns anos mais tarde, já adolescente, é que entrou como contínuo para o Diário de Notícias, onde se aposentaria trinta anos depois, como linotipista.

No correr dessas décadas, o Grupo Diários Associados de Assis Chataubriand, ao qual pertencia o jornal Diário de Notícias, passa a comandar também a Rádio Sociedade da Bahia. É graças a isso que o destino de Oscar da Penha muda, uma vez que é no seu meio de trabalho que vem a conhecer Antonio Maria, o diretor da Rádio, que o lança como Batatinha em 1944. Assim, pouco a pouco, a carreira de cantor e compositor vai se moldando e se ajustando ao trabalho de gráfico.

Todavia, nunca pôde abrir mão do seu emprego formal para se dedicar unicamente à música. Não é simples acaso que algumas de suas primeiras composições versem justamente sobre esse universo, o da batalha diária pelo sustento. A mais famosa delas é Inventor do Trabalho, que, embora gravada por Nora Ney em 1974, data dos anos 1940, época em que o jovem Oscar da Penha se debatia com o fato de trabalhar tanto e não sair do aperto. A música era o caminho do seu protesto, como chegou a esclarecer certa feita, e como podemos comprovar ouvindo os versos de , samba dessa mesma época, porém nunca gravado e, por consequência, esquecido.

A carreira de sambista, ainda que entrecortada pelas responsabilidades do trabalhador, obteve êxito. Já o dinheiro, esse demorava a aparecer. Batatinha passou mais de uma década sem receber pelos direitos autorais de Jajá da Gamboa, sucesso radiofônico na voz de Jamelão. Algum dinheiro só começaria a entrar a partir da inserção de alguns de seus sambas nos shows ao vivo de Maria Bethânia.

A maior dentre seus intérpretes chegou a gravar outra canção que remonta às dificuldades financeiras enfrentadas pelo artista. Já é famosa a triste passagem que inspirou a composição de Circo, quando o poeta se viu na impossibilidade levar os filhos para ver a trupe mambembe que passava pela cidade. O paradoxo é que justamente essa história renderia a Batatinha um bom retorno em direitos autorais ao longo de toda a sua carreira.

Infelizmente, nem todos os seus sambas percorreram esse mesmo caminho, muitos nem sequer tendo sido registrados, o que obrigou o sambista a nunca abandonar seu posto nos empregos formais que teve no correr da vida. Seu exercício nesses empregos era cumprido com enorme dignidade, a mesma que ele aplicava na composição de seus sambas, num comprometimento só possível a quem faz da arte um ofício.

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