Trilhas

O diplomata do samba soube como ninguém circular no meio artístico. Toda a sua carreira é marcada por encontros felizes em diversas artes. O principal motivo foi o seu talento flagrante, mas em boa medida também contribuiu o seu carisma, o jeito afável, sempre disposto a novas parcerias e projetos.

Seu trânsito inicial se deu com o pessoal do teatro, que de quando em quando o convidava a fazer a trilha de algumas peças musicadas. Foi o caso, por exemplo, da montagem nos anos 1960 na Bahia da peça Pedro Mico, de Antonio Callado. Incumbido da criação de canções para cenas da peça, surgem alguns sambas importantes de sua carreira, mas que só viriam a ser gravados anos depois, como Bossa Capoeira, Sorriso de Mulher e a bela Espera, que servia de trilha para a cena de abertura, quando a protagonista Melize passava longo período aguardando o seu amado.

O costume de criar sob encomenda fez fama e deu ao sambista outra forma de trabalhar com seu talento e ganhar algum “tutu”, pois além de compor para o teatro, ele também criava jingles políticos e comerciais. A demanda às vezes era grande, por isso contava com a ajuda de alguns parceiros para esses serviços, como foi no caso da montagem que Jurema Pena estava fazendo de seu texto Abre Alas para o Major Cosme Farias e para a qual pediu a Batatinha cinco músicas. O poeta não hesitou em propor parceria a Lula Carvalho, que relata terem feito as cinco músicas num tempo recorde, antes do início de um jogo do Brasil.

O passar do tempo fez de Batatinha um nome na cena cultural de Salvador e na década de 1970 ele já era encarado como um pilar da tradição do samba baiano. Foi como forma de homenageá-lo e de dar maior visibilidade a seu trabalho que o cineasta Tuna Espinheira o colocou para contar um pouco de sua história frente às câmeras, gravando em 1978 o documentário , até hoje única fonte de imagens em vídeo do sambista com a família. Por essa mesma época ele recebeu o convite de um outro cineasta, o francês Marcel Camus, para participar da adaptação que ele vinha fazendo d’Os pastores da noite, de Jorge Amado. Batatinha chega a adiar a gravação de um disco para tomar parte no filme, mas por motivos até hoje não esclarecidos isso não acontece.

Suas aparições e participações viriam a aumentar depois que ele se aposenta como gráfico, podendo dedicar-se exclusivamente a sua arte. Em 1983, é chamado para compor um dos shows do Projeto Pixinguinha ao lado de Elza Soares, num show intitulado Noite e Luz, com o qual viajou por diversas capitais do país. Ainda nesse ano, faz sua primeira e única viagem internacional, integrando a caravana de artistas baianos que vão até a Itália realizar o festival , que viraria um documentário homônimo apenas em 1996, sob a direção de Leon Hirszman e Paulo Cesar Saraceni.

Quando Octávio Bezerra decidiu fazer um filme que falasse do Centro Histórico de Salvador, de sua importância e do seu estado de abandono na época (1985), reuniu diversos artistas que tinham ligação com esse espaço. E é claro que Batatinha estava dentre eles, já que toda a sua história, desde a infância, tinha aquelas ruas como cenário. O documentário  foca sua ação na famosa Cantina da Lua, comandada por Clarindo Silva, onde intelectuais e músicos de alta estirpe costumavam se reunir nas noites soteropolitanas.

Para fechar o percurso trilhado pelo diplomata do samba em outras áreas, faltava ainda sua contribuição em alguma adaptação do universo criado pelo parceiro Jorge Amado (poucos se lembram da parceria dos dois na música ABC). Eis então que o cineasta Nelson Pereira dos Santos vem a acabar com a antiga frustração deixada pelo colega francês Marcel Camus e escala Batatinha para desempenhar um importante papel no filme , uma coprodução Brasil-França em que o mestre, além de atuação discreta, pontua a película com o que sempre fez de melhor: bom samba.

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